|
Reumatologia
RELATO
SOBRE O 1o SIMPÓSIO MULTIDISCIPLINAR
SOBRE A SÍNDROME DE SJÖGREN -
4o REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE DE REUMATOLOGIA DO RIO DE JANEIRO
Roger
A. Levy, Verônica S. Vilela e Mirhelen Abreu.
Disciplina de Reumatologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Como
parte do programa científico anual da Sociedade de Reumatologia
do Estado do Rio de Janeiro, realizou-se no dia 7 de dezembro, no
Hotel Glória, um simpósio dedicado à abordagem
multidisciplinar e interativa entre as diversas especialidades relacionadas
com a Síndrome de Sjögren (SS). Apesar de um lindo dia
de sol, com uma temperatura aproximada de 38oC e as maravilhosas
praias do Rio, o auditório estava cheio. A maior parte foi
composta por reumatologistas, dermatologistas e oftalmologistas,
mas também estavam presentes profissionais da área
de odontologia e membros de outras especialidades médicas.
O objetivo do evento foi promover maior conhecimento na suspeita
clínica além de revisar e atualizar o público
sobre os vários aspectos da doença. Por exemplo, existe
um atraso no diagnóstico da SS no nosso meio, onde se pode
levar de 6 a 8 anos desde o começo dos sintomas até
chegar ao diagnóstico, prejudicando a saúde do paciente
e seus familiares.
Paralelamente se realizou um evento com palestras educativas com
os médicos das diversas especialidades voltada aos pacientes
e familiares dos portadores de SS. Ressaltando os aspectos mais
relevantes que esse público deve tomar conhecimento, tanto
em seu aspecto clínico-terapêutico, quanto na repercussão
psíquico-social imposta pela patologia. Houve o apoio de
uma organização não governamental sem fins
lucrativos, LÁGRIMA-BRASIL (www.lagrima-brasil.org.br) ,
um grupo de suporte para os pacientes da SS, coordenado por Stella
De’Carli C. de Oliveira, também portadora da Síndrome
de Sjögren. Os participantes da reunião de pacientes
eram de diversas classes sociais e graus de instrução.
MANIFESTAÇÕES
CLÍNICAS E CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO
S. Kassan (Universidade do Colorado, Denver) fez uma revisão
do amplo espectro das manifestações clínicas
da SS, enfatizando que as diversas especialidades devem estar conscientes
dos sintomas e sinais de secura, que são particularmente
notados nas membranas oculares e bucais, mas que também podem
afetar outras regiões. Destacou que o reumatologista é
quem deve orquestrar a investigação diagnóstica
e a conduta terapêutica da SS. Sua prevalência é
amplamente distribuída e a estimativa nos Estados Unidos
é de que haja 2 a 4 milhões de pacientes acometidos,
embora seja sub-diagnosticada em todo o mundo. Existe uma predominância
no sexo feminino (9 mulheres para 1 homem), sugerindo uma ação
imuno-reguladora dos hormônios sexuais. Muitas mulheres apresentam
os primeiros sintomas durante os anos da menopausa.
Muitos médicos não dão atenção
às queixas de seus pacientes, o que leva a um atraso de até
dez anos do diagnóstico ao início do tratamento: os
sintomas podem ser incorretamente atribuídos à idade
avançada ou à menopausa. Os sintomas da SS incluem
alterações do paladar, do olfato, dificuldade para
deglutir, nutrição inadequada, dores oculares, fadiga
e muitos outros sintomas que podem levar a sérias conseqüências
sociais e familiares.
Um aspecto que faz com que a SS seja um tema interessante a ser
estudado é que tem indícios importantes para a etiologia,
patogenia e tratamento auto-imune no câncer. Compreender as
minúcias do processo chamado de apoptose ou morte celular
programada, certamente contribuirá com o desenvolvimento
de novos tratamentos com base na medicina molecular e terapia genética.
A SS primária se define através da presença
da xerostomia e xeroftalmia além de sua confirmação
através de exames complementares (Schirmer e Rosa bengala,
para xeroftalmia; cintilografia de parótidas e biópsia
de glândula labial, para a xerostomia e exames imunológicos,
tais como o FAN e anti-Ro), sem nenhuma outra doença do tecido
conjuntivo após um período de cinco anos de abertura
do quadro. A SS secundária se caracteriza pela sua associação
com outras patologias, como a artrite reumatóide ou o lúpus
eritematoso sistêmico, por exemplo. Os pacientes que sofrem
de fibromialgia e fadiga crônica freqüentemente apresentam
sintomas de secura, mas podem não preencher os critérios
mais rigorosos para o diagnóstico da SS.
O desenvolvimento da SS parece seguir um modelo de duas etapas.
Etapa 1: etapa inicial não-imune associada à apoptose
excessiva das células epiteliais glandulares, liberando auto-antígenos,
induzindo a produção de auto-anticorpos tais como
anticorpos anti-Ro/SSA e anti-fodrina. Etapa 2: Etapa imune-mediada,
quando os antígenos atraem os linfócitos até
determinados órgãos, iniciando uma destruição
auto-imune das glândulas exócrinas e de outros órgãos.
Fatores genéticos, virais, hormonais e de estresse podem
atuar em diversos pontos deste modelo. Uma combinação
desses fatores pode influenciar não somente o sistema imunológico
mais também o cérebro e os neuro-transmissores aí
produzidos.
Um estudo longitudinal de 261 pacientes na Grécia entre 1981
e 1995, demonstrou que a apresentação inicial do distúrbio
ao ser diagnosticado determina seu resultado. Geralmente, os perfis
sorológicos não sofrem mudanças durante o curso
evolutivo da doença. O mesmo acontece com a maioria das manifestações
extra-glandulares sistêmicas, exceto para o desenvolvimento
de linfoma e da glomerulonefrite (eventos tardios). Púrpura
palpável, níveis de C4 baixos e crioglobulinemia monoclonal
são fatores de prognóstico adversos. A mortalidade
dos pacientes da SS primário, em sua totalidade, não
é diferente daquelas da população normal.
Os critérios para classificação são
utilizados para a padronização do diagnóstico
nos estudos clínicos, para facilitar a análise de
dados, e comparar os pacientes de diferentes instituições.
As complicações das glândulas lacrimais e salivares
resultam em características típicas: um terço
dos pacientes apresentam manifestações sistêmicas
simultâneas.
A abordagem para o diagnóstico da SS pode ser difícil
porque inclui dois objetivos diferentes, a saber: avaliação
dos componentes oculares e salivares assim como diferenciação
entre as formas primárias e secundárias. Os critérios
para classificação não são perfeitos
para uso no diagnóstico e alguns pacientes podem ser incorretamente
classificados, particularmente nas etapas iniciais. A classificação
da doença não deve ser considerada como norma médica
para diagnóstico. A crítica principal sobre o primeiro
critério europeu é a habilidade de diagnosticar a
SS sem (em alguns casos) uma biópsia anormal do lábio
ou a presença de anticorpos anti-Ro/SSA ou anti-La/SSB. Dois
dos seis itens são queixas subjetivas, no entanto, é
possível deixar de classificar pacientes que sofrem de SS
primário e que talvez não tenham sintomas subjetivos.
Comentários: Um paciente com SS na fase inicial pode ter
sintomas vagos, podendo apresentar queixas de diferentes aspectos.
A forma primária geralmente leva mais tempo para ser diagnosticada
por causa da sua associação da forma secundária
com doenças reumáticas mais comuns. O amplo arsenal
de métodos de diagnósticos deve ser utilizado com
muita atenção quando se trata do diagnóstico
da SS. Critérios de diagnóstico são muito importantes
para estabelecer o diagnóstico da SS. Elementos-chave no
novo critério revisado dos Estados Unidos e Europa incluem
aspectos clínicos (subjetivos) e dois critérios objetivos
e sorológicos. Um critério de diagnóstico uniforme
permitirá que no futuro se façam estudos de probabilidades
mais homogêneos, particularmente em relação
a resposta das futuras tentativas de tratamento com fármacos.
PROVAS
DE LABORATÓRIOS NO DIAGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO
RA Levy (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
mostrou como o laboratório de patologia clínica pode
servir de suporte no diagnóstico e tratamento dos pacientes
da SS. As proteínas de fase aguda estão elevadas devido
à reação inflamatória sistêmica
e isto se reflete em um aumento da velocidade de sedimentação
das hemácias (VHS), proteína C-reativa (PCR) e alfa
1-glicoproteína ácida. As metodologias ultra-sensíveis
utilizadas para medir o PCR e a alfa 1-glicoproteína ácida
são ferramentas confiáveis para a valorização
das manifestações sistêmicas. A crioglobulinemia
mista policlonal ou monoclonal pode ser encontrada em até
60% dos portadores primários. Uma mudança para a crioglobulinemia
do tipo 1 (monoclonal) pode ser um indicador precoce de desenvolvimento
de linfoma. A hipergamaglobulinemia policlonal reflete a possível
formação de vários auto-anticorpos. Uma banda
monoclonal sugere linfoma como o desaparecimento do fator reumatóide
circulante e a concentração plasmática elevada
de beta-2 microglobulina. Em 50-70% dos pacientes é possível
encontrar o fator reumátoide, sendo que esse pode determinar
complicações sistêmicas. As alterações
hormonais, tais como aumento de prolactina, têm sido relatados
em até 46% dos pacientes, mais comumente em pacientes mais
jovens. Os anticorpos da anti-tiroglobulina são encontrados
em 25% e tiroidites auto-imunes em 15%. Os anticorpos antinucleares
(FAN ou ANA) são detectados pela técnica de imunofluorescência
indireta com células HEp-2 em mais de 70% dos casos, e servem
como ferramenta de exploração não-específica
ou altamente sensível nos casos de SS primária. O
padrão pontilhado fino está associado ao anti-Ro/SSA
com ou sem anti-La/SSB, e deve ser investigado por uma metodologia
mais específica, como contra-imuno-eletroforese ou hemaglutinação.
Ainda que estes dois auto-anticorpos façam parte dos critérios
de classificação da SS primária, não
são específicos. Outros anticorpos relacionados ao
LES tais como anti-DNA e anticorpos anti-Sm e o anti-fodrina (a
proteína 120 kD da matriz extra-celular) tem um papel muito
importante no modelo de rato “knock out” para o gene
P53. Era mais comum em formas mais jovens, seu papel patogênico
foi sugerido e talvez tenha um valor prognóstico. O anticorpo
anti-receptor muscarínico de acetilcolina do tipo M3 exerce
efeitos inibitórios do receptor muscarínico na neuro-transmissão
parassimpática, atuando como um novo marcador do diagnóstico
da SS e parece ser bastante específico.
Comentários: Os resultados de laboratório podem variar
e devemos estar atentos para as variações das especificidades
e sensibilidades metodológicas. Os prognósticos da
transformação neoplásica devem ser observados
com muito cuidado e os auto-anticorpos descritos mais recentemente
por técnicas que estão evoluindo cada vez mais rapidamente
dos laboratórios de ciência básica até
os laboratórios de patologia clínica, devem consolidar
seu papel na prática clínica num futuro muito próximo.
MANIFESTAÇÕES
OCULARES, DIAGNÓSTICOS E CONDUTA.
R. Neves (UERJ) definiu a xeroftalmia como olho seco, caracterizada
pela sensação de um objeto estranho, coceira, fotofobia,
ardência e sensação de peso ou uma sensação
de queimação e fadiga que geralmente permanecem até
o final do dia. Outras causas de xeroftalmia devem ser excluídas,
tais como blefarites, infecções virais, irritação
devido a lentes de contato e uso de diversos fármacos (a
e b bloquedores, diuréticos, amitriptilina, nortriptilina,
ciclobenzaprina, descongestionantes nasais e outros). O mecanismo
da xeroftalmia é disfunção lacrimal gerando
um aumento da viscosidade das lágrimas comprometendo o movimento
do globo ocular, levando a uma capa epitelial superficial reduzida
da conjuntiva e da córnea (córnea mais fina). Pode
surgir uma reação inflamatória e pode levar
a uma abrasão da córnea que é uma complicação
séria. Outras ocorrências são: redução
do menisco lacrimal, presença de fragmentos celulares, secreção
filamentosa, placas mucosas e infecções secundárias.
V. Varandas (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)
descreveu provas utilizadas para a avaliação da ceratoconjuntivite
seca e do volume de lágrimas. O chamado teste de Schirmer
I (com ou sem anestesia local) e II (com estimulação
do reflexo naso-lacrimal) e a vitalidade epitelial com solução
do corante de Rosa-Bengala, é um método simples e
fácil que permite a classificação de acordo
com a graduação da impregnação do corante.
Os corantes fluorescentes são utilizados para a visualização
das áreas que sofreram danos epiteliais; o tempo de quebra
do filme lacrimal, o teste chamado de BUT ("break-up-time")
verifica a integridade e o tempo de quebra da película lacrimal,
sendo que um aumento deste tempo reflete uma anormalidade da concentração
de mucina da córnea ou da capa lipídica.
O tratamento da xeroftalmia foi o tema da apresentação
do Dr. LA Molina (Hospital Municipal de Piedade, Rio de Janeiro).
O objetivo da abordagem é o de aliviar o incomodo e evitar
complicações. As lágrimas artificiais são
utilizadas livremente quando necessário; os preparados que
contém conservantes devem ser evitados. É importante
identificar os fatores ambientais que provocam ou pioram os sintomas,
assim como os fatores farmacológicos. Os umedecedores e protetores
oculares podem ser úteis. Os tampões pontuais e a
cauterização são reservados para os casos de
secura ocular intensa.
Comentários: Como a xeroftalmia é uma queixa comum
e subjetiva, sendo um dos principais sintomas responsáveis
pelo diagnóstico da SS, é muito importante conhecer
suas outras causas. Existe uma lista composta de muitos medicamentos
que pode levar a sintomas do olho seco, inclusive aqueles utilizados
na prática da reumatologia, tais como os antidepressivos
tricíclicos. A execução correta das provas
oftálmicas é crucial na avaliação da
ceratoconjuntivite seca. Estas provas são de baixo custo
e de fácil execução e fazem parte dos critérios
de diagnóstico. As pessoas podem apresentar respostas diferentes
utilizando as diversas preparações de lágrimas
artificiais disponíveis no mercado, assim como causadas pelas
mudanças de ambiente.
MANIFESTAÇÕES
ORAIS: DIAGNÓSTICO E CONDUTA.
Ramos (UERJ), explicou que os sintomas orais da SS se apresentam
lenta e gradualmente e sua gravidade pode variar amplamente. Boca
seca ou xerostomia é a manifestação mais comum
e pode se apresentar como dificuldades na deglutição
de alimentos secos, assim como, mudança no paladar, aumento
de cáries ou com uma sensação de queimação
na língua e na boca. No exame se pode encontrar um número
reduzido de papilas, dificuldade na fixação de próteses,
aftas orais e queilite angular. As manifestações periodônticas
são freqüentes, podendo apresentar uma desmineralização
dentária intensa, formação de placas e periodontite.
S. Torres (UFRJ) revisou os métodos atuais utilizados na
avaliação da mucosa oral, saliva, e glândulas
salivares. A sialografia determina a anatomia dos condutos salivares,
visualizando as glândulas principais, como as parótidas
e submandibulares. O procedimento pode ser doloroso e predispõe
a infecções e obstruções, mas alguns
pacientes podem, na realidade, sentir alívio com a dilatação
dos condutos depois da execução do exame. A análise
química da saliva é um método não invasivo,
mas não é amplamente utilizado. A sialometria mede
a secreção da saliva por minuto. O material coletado
pode ser estudado em descanso ou depois de estímulo químico
ou mecânico. A cintilografia utiliza a captura e secreção
de tecnécio-99, 60 minutos depois de uma infusão endovenosa
com o intuito de medir o fluxo salivar. O comprometimento inflamatório
das glândulas salivares menores é demonstrado mediante
a observação de um infiltrado linfocítico na
histopatologia. O resultado se expressa como uma quantidade de focos
de infiltração linfocítica, como a classificação
proposta por Chrisholm e Mason, que pode mostrar a diferença
entre xerostomia e hipossalivação, esta última
podendo ser encontrada em 22% a 39% da população normal.
MER Janine (UERJ) apresentou uma visão geral da abordagem
terapêutica, na qual estão implicadas orientações
sobre higiene, hábitos alimentares, proteção
e recuperação. Os estimulantes salivares como a pilocarpina,
cevimelina e bromexina têm como objetivo manter a umidade
bucal. As doses de pilocarpina podem ser aumentadas quando necessário.
A cevimelina é uma alternativa que parece apresentar menos
efeitos colaterais, particularmente no trato GI. A proteção
de flúor e os cuidados adequados das gengivas são
cruciais, incluindo a remoção das secreções
aderidas a língua. As gomas de mascar sem açúcar
aumentam o fluxo salivar sem aumento do número de cáries.
As preparações anti-fúngicas são usadas
freqüentemente no local e algumas vezes de forma sistêmica.
O aumento das glândulas é tratado com fármacos
anti-inflamatórios e algumas vezes com corticoesteróides.
Comentários: É muito importante saber que as manifestações
orais, que no começo podem ser vagas, progridem lentamente
mas podem comprometer a qualidade de vida do paciente. Existem diversos
meios disponíveis para a avaliação da xerostomia.
Diagnósticos diferenciais incluem uma série de condições
tais como outras doenças sistêmicas e uso de medicação.
Mais de um tipo de técnica de imagem pode ser utilizado,
e em algumas vezes, faz-se necessário obter-se uma biópsia.
O tratamento com medidas locais deve ser vigoroso e inclui hidratação
apropriada, o que exige uma disciplina por parte do paciente, e
assim mesmo pode falhar. A experiência com a pilocarpina e
civemelina, ainda é nova e a melhor resposta é observada
na mucosa oral.
MANIFESTAÇÕES
REUMÁTICAS
M. Goldfarb (Hospital dos Servidores do Estado, Rio de Janeiro)
lembrou que a SS primária é a segunda doença
sistêmica auto-imune mais comum, que a forma secundária
geralmente se desenvolve muitos anos depois da manifestação
da doença reumática subjacente e apresenta resultados
de laboratório sobrepostos. As associações
mais freqüentes são com artrite reumatóide (AR),
esclerodermia, lúpus eritematoso sistêmico e cirrose
biliar primária. Parece que existe uma relação
entre AR grave e SS. A infecção pelo vírus
da hepatite C pode apresentar crioglobulinemia mista e um quadro
SS-símile. As manifestações clínicas
nas formas primárias e secundárias são semelhantes.
As queixas de fibromialgia são freqüentes. A complicação
renal se caracteriza por nefrite túbulo-intersticial (9%),
infiltração linfocítica e hipocalcemia. Pode
ocorrer falha renal e a complicação glomerular é
rara (2%). A artralgia (75%) é mais comum que a artrite (25%);
sua representação é semelhante a da AR, mas
sem doença erosiva. A gastrite atrófica leva à
intolerância medicamentosa, inclusive com antimaláricos
e methotrexato.
Comentários: Devido a seus aspectos multi-sistêmicos,
a SS requer uma abordagem em conjunto. O reumatologista tem o papel
de centralizar a investigação do diagnóstico
e o cuidado dos pacientes que sofrem de SS. É mais comum
que um paciente com doença reumática sistêmica
desenvolva a SS posteriormente, do que o contrário.
MANIFESTAÇÕES
NEUROLÓGICAS E PSIQUIÁTRICAS
G. Araújo (UFRJ) comentou que as manifestações
neuropsiquiátricas em uns poucos casos podem preceder à
síndrome da secura. Os sintomas neuropsiquiátricos
ocorrem depois do diagnóstico da SS em 65% dos casos. A complicação
do sistema nervoso central (SNC) é de difícil documentação
e é eventual. Os sintomas podem ser encefálicos ou
devidos a uma lesão medular, incluindo encefalite, mielite,
deficiências sensoriais e motoras. Os quadros neuropsiquiátricos
requerem uma investigação minuciosa. As manifestações
psiquiátricas podem ser divididas em sintomas depressivos
ou de ansiedade. Podem ser orgânicos, secundários aos
distúrbios vasculares devido à lesão imunológica
dos neurônios ou funcional, secundária ao estresse
da tolerância crônica. A tomografia computadorizada,
ressonância magnética e estudos angiográficos
são normais. O SPECT geralmente revela perfusão anormal
dos lóbulos temporais.
Comentários: Um psiquiatra que tenha mais experiência
no tratamento com doenças imunes crônicas, como a SS,
bem como qualquer outro especialista, é capaz de tratar com
mais eficácia os pacientes da SS. A atenção
às manifestações de secura dos medicamentos
mais comumente utilizados em neurologia e psiquiatria é uma
obrigação. A avaliação e o tratamento
apropriado dos distúrbios cognitivos, que são comuns,
deve ser considerado de forma sistemática, objetivando a
melhora da função.
MANIFESTAÇÕES
PULMONARES
M Negreiros (UERJ) informou os resultados da sua experiência
com as manifestações pulmonares na SS em pacientes
encaminhados ao Serviço de Pneumologia do Hospital Universitário
Pedro Ernesto da UERJ. De acordo com dados atuais, 90% dos pacientes
que sofrem da SS deverão em alguma época ter alguma
manifestação pulmonar, que muitas vezes pode ser assintomática,
sendo aproximadamente 40% decorrente de secura. Dos 16 pacientes
com SS que foram encaminhados ao conferencista por queixas pulmonares,
79% tinha complicações das vias respiratórias,
65% tinha doença pulmonar intersticial e 29% doença
pleural. Na literatura sobre SS primária, a doença
intersticial é encontrada em aproximadamente 6% do total
de pacientes e o derrame pleural em 2%. O valor do lavado bronco-alveolar
(BAL) foi cuidadosamente considerado, a partir do qual foi evidenciado
elevado índice de linfócitos na árvore brônquica
que, por sua vez, talvez possam não representar uma doença
alveolar. Dos 16 pacientes examinados, aqueles com BAL de predominância
neutrofílica tinham um melhor prognóstico, que era
compatível com os dados da literatura atual. O tratamento
com methotrexato deveria ser evitado na doença pulmonar intersticial,
devido o risco de síndrome pneumônica aguda.
Comentários: Uma vez que o acometimento pulmonar pode ser
silencioso e de progressão lenta, recomenda-se exames radiográficos,
tomografia computadorizada (de preferência de alta resolução)
de rotina, assim como a avaliação pela prova de função
respiratória. Entretanto, ainda existem dúvidas relativas
à importância dos estudos de BAL. Cumpre ressaltar
que o tratamento tem melhores resultados quanto mais precocemente
introduzido.
MANIFESTAÇÕES
GASTRINTESTINAIS.
H. Rztelna (Santa Casa da Misericórdia, Rio de Janeiro) explicou
que como as glândulas exócrinas amplamente distribuídas
no trato GI, estão altamente comprometidas na SS. Pouca saliva
ou falta de saliva prejudica a digestão e a deglutição.
A falta de saliva no esôfago predispõe a infecções
fúngicas, a parte inferior do esfincter é desentumecida,
predispondo a doença de refluxo. Pode ocorrer gastrite atrófica,
com anticorpos contra as células parietais assim como hipergastrinemia,
levando a uma doença epigástrica ou úlcera.
O H. pylori e infecções pelo HSV-6 são mais
comuns que nos controles. Nos intestinos delgado e grosso, a doença
celíaca, infiltrações inflamatórias,
sigmoidites, pseudo-obstrução e uma má absorção
podem ocorrer. A cirosse biliar pode ocorrer em 4% dos pacientes
da SS primário. A hipofunção pancreática
ocorre em 37% dos casos e é mais comumente assintomática.
A pancreatite aguda é rara.
Comentários: Todas as queixas inclusive as vagas do trato
gastrintestinal devem ser investigadas por um especialista. O anticorpo
anti-mitocondrial tem valor de prognóstico relevante no desenvolvimento
da cirrose biliar primária.
MANIFESTAÇÕES
OBSTÉTRICAS E GINECOLÓGICAS
NR Jesus (UERJ) informou que a dispareunia causada por secura vaginal
é uma ocorrência freqüente (40%) e pode ser o
motivo inicial que leva os pacientes com SS a buscar um médico.
Entretanto, os pacientes raramente se queixam de dispareunia durante
suas visitas regulares. A secura vaginal também aumenta a
freqüência de infecções. A freqüência
da relação sexual não é menor nos pacientes
com SS. Quanto à reposição hormonal durante
a menopausa, os riscos são os mesmos dos encontrados na população
em geral. O resultado gestaional é normal quando o anti-Ro/SSA
e anti-La/SSB estão ausentes; quando presentes, não
existe um indicador que possa diagnosticar quem terá um feto
com lúpus neonatal. O lúpus neonatal pode se apresentar
com uma doença da pele limitada que desaparece depois de
6 a 8 meses de vida ou pode ser permanente com bloqueio átrio-ventricular
total (BAVT). Os pacientes com anti-Ro/SSA recebem monitoração
mensal durante a gravidez mediante ecocardiografia fetal. A partir
das 22 a 24 semanas de gestação a ecografia fetal
deve ser realizada semanalmente em função de haver
uma maior incidência de BAVT durante este período.
O tratamento com dexametasona deveria ser instituído se for
encontrado BAVT antes das 24 semanas de gravidez ou quando existe
hidropsia fetal.
Comentários: Queixas ginecológicas podem ser relacionadas
à secura vaginal em si mesma ou ao aumento da freqüência
de infecções virais ou fúngicas decorrentes
da má lubrificação. Os lubrificantes vaginais
a base de água podem melhorar a dispareunia e ajudar na prevenção
de infecções. O acompanhamento adequado da gravidez
requer uma abordagem de equipe multidisciplinar. Atenção
especial deve ser tomada em relação aos medicamentos
utilizados durante este período, assim como quando estiver
no período da amamentação.
MANIFESTAÇÕES
DERMATOLOGICAS DA SS
AC Gripp (UERJ) apresentou o tema sobre as manifestações
dermatológicas da SS, que vão desde a xerodermia e
sensação de pele seca até as principais complicações
dermatológicas da SS primária. A secura da pele deve
ser diferenciada de outras dermatoses. Lesões comuns da pele
nos pacientes que sofrem de SS são dermatites palpáveis
e lesões em forma de rosca semelhante ao lúpus cutâneo
sub-agudo. A púrpura palpável nos pacientes da SS
pode ser extremamente viável e, ainda que mais comumente
nas pernas, podem ocorrer em qualquer parte do corpo. A vasculite
cutânea pode ser classificada como neutrofílica e monocítica,
de acordo com os achados histopatológicos. As hepatites C
e B devem ser excluídas. A síndrome de Sweet, eritema
nodoso e dermatite herpetiforme também podem ocorrer em pacientes
com a SS e podem ser a primeira queixa que leva o paciente a buscar
um médico. Umectantes e cuidados adequados da pele foram
sugeridos para o alívio dos sintomas da pele seca. Corticóides
e imunossupressores são utilizados nas lesões mais
graves.
Comentários: O dermatologista deve estar consciente da relação
da pele seca e outras características de secura na mucosa,
iniciando então uma investigação sobre a SS
primária. Durante um acompanhamento a longo-prazo, o dermatologista
dever ser capaz de diferenciar eventos relacionados ao desenvolvimento
de uma outra doença sistêmica e de agentes infecciosos.
ATUALIZAÇÃO
DO TRATAMENTO
S Kassan concluiu o simpósio falando sobre o tratamento atual.
Para as manifestações glandulares devem ser utilizados
estimuladores para a produção de lágrima e
tampões de bicarbonato. A secura de mucosas pode ser o resultado
de muitas outras causas que não a SS, como medicamentos e
infecções. O FAN positivo pode estar presente em muitas
condições sem uma verdadeira SS ou lúpus eritematoso
sistêmico.
O tratamento para SS inclui uma terapia de manutenção
para a secura e medicamentos para o processo auto-imune sistêmico,
tais como vasculites, fadiga, transtornos do sono, comprometimento
músculo-esquelético e complicações orgânicas.
Evidência objetiva de secura ocular ou bucal merecem instruções
para o tratamento de manutenção. A questão
crítica é se é necessário se iniciar
uma terapia sistêmica no paciente com sintomas vagos de secura
e FAN positivo em baixos títulos. Kassan destacou que candidíase
oral e exsudação branca talvez não aconteçam
em virtude da ausência de umidade. Por isso, a candidíase,
que ocorre em cerca de 30% dos pacientes, pode ser tratada empiricamente.
Os estimulantes mecânicos e do paladar, tais como goma de
mascar sem açúcar, são amplamente utilizados.
Os tratamentos inunossupressores são bem indicados na presença
de manifestações graves como nefrite e vasculite.
Os sintomas músculo-esqueléticos podem ser tratados
com hidroxicloroquina, anti-inflamatórios não esteroidais,
coxibs e methotrexato. A cirrose biliar primária e hepatite
auto-imune são tratadas com altas doses de esteróides
e ácido ursodeoxicólico. A utilização
de agentes citotóxicos para a vasculite sistêmica deve
ser considerada. O linfoma deve ser tratado de acordo com as características
histológicas.
O acompanhamento do paciente com SS enfoca o alívio sintomático,
reduzindo os danos da secura induzida da mucosa e deve reconhecer
e tratar as complicações das doenças. A educação
dos pacientes é um ponto chave quando recebem orientação
sobre o uso dos medicamentos, cuidados orais preventivos e higiene
pessoal geral. A decisão para a intervenção
terapêutica sistêmica permanece empírica e está
baseada na intensidade das manifestações extra-glandulares.
A pilocarpina aumenta as taxas do fluxo salivar com 16 minutos após
a administração oral, sendo que as taxas dos picos
de fluxo se mantêm por 4 horas. Os efeitos também envolvem
os receptores muscarínicos. Infelizmente nenhum estudo clínico
com qualquer medicamento tem se mostrado capaz de alterar o curso
da SS. Instruções futuras para o tratamento estão
baseadas em medicamentos que tenham como objetivo as citoquinas,
tais como talidomida, etanercept e infliximab. O tratamento por
um ano com infliximab demonstrou, em um estudo recentemente publicado
na Artritis and Rheumatism de janeiro de 2003, que foi possível
obter-se remissão completa do quadro.
Comentários: Uma abordagem com uma equipe multidisciplinar
composta por um reumatologista que coordena a investigação
e o tratamento é crucial para um melhor resultado dos pacientes
da SS. A pilocarpina, o ingrediente ativo da planta Jaborandi foi
utilizada pelos índios da região Amazônica no
tratamento da secura antes da instalação da colônia
Portuguesa no Brasil em 1500. Em finais do século XIX, Coutinho
apresentou a substância à comunidade científica
parisiense e descobriu suas propriedades em sua tese de doutorado.
Pode parecer irônico, mas o medicamento é disponível
à comercialização em maior parte do mundo,
mas não está disponível no Brasil. Parece haver
um futuro promissor com o uso de agentes biológicos como
os anti-TNF.
|
|